sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Planeta Terror - Planet Terror





Quando fiquei sabendo que Quentin Tarantino e Robert Rodriguez iriam produzir um filme B eu não acreditei. Algumas lendas rodeiam o cinema. Produções idealizadas por diretores que nunca saem do papel (sempre sonhei em ver a vida de Napoleão contada por Stanley Kubrick) são alvo de especulações e imaginava que o projeto dos dois nunca seria realizado. Quem seria o louco de fazer um filme B, com a fotografia simulando película antiga, zumbis, escatologia, humor negro e colocá-lo no circuito blockbuster? Tarantino e Rodriguez são.

Já fica aqui o meu protesto pela forma de como o filme foi exibido no Brasil e em alguns outros países. Decidiram fragmentá-lo em duas partes. O próprio conceito de Grindhouse já se perdeu antes de eu ver os primeiros minutos da película. Grindhouse faz referência a filmes da década de 70 que eram exibidos em salas pouco convencionais e em seqüência. Era possível assistir a dois, três filmes com o preço de um ingresso. Para isso os diretores até criaram trailers fictícios simulando os intervalos entre um filme ou outro. Tudo isso em vão se o filme foi separado em duas partes. Pior ainda a distância entre as exibições. Grindhouse será exibido só em março no Brasil. Produtores temeram salas vazias com um filme tão grande. Mas parece que nem a fragmentação da idéia dos diretores resolveu o problema do fracasso nas bilheterias. Tal fracasso até me alegra. Não gostaria de ver um filme B na boca do povo, sendo adorado. A revolta de certas pessoas no cinema diante de cenas nonsense me agrada bastante pois é esse o mesmo sentimento provocado quando essas mesmas pessoas estão diante de um genuíno trash ou filme B.

O roteiro do filme lembra muito os clássicos de terror de George A.Romero (tetralogia dos mortos) e diversas referências são citadas. A protagonista Cherry Darling (Rose McGowan) tem o mesmo espírito independente das go-go dancers dos filmes de Russ Meyer (“Faster Pussycat! Kill! Kill!). A câmera do diretor acompanha as mulheres assim como um espectador de filmes B. Está preocupada com suas curvas e por vezes nos diálogos ela está focada no corpo e não no rosto das beldades (temos também a participação da vocalista do Black Eyed Peas Fergie, garota que com 12 anos de idade participou de um filme totalmente trash chamado Monster in the Closet que tive a oportunidade de assistir esse ano).

Rose McGowan está muito interessante no filme. É uma go-go dancer que tem sua perna mutilada e substituída por uma metralhadora. Lembrei na hora de “A Morte do Demônio 3” em que Ash encaixa uma moto-serra no braço e começa o estrago. Ela já sonhou em ser médica e agora quer ser uma atriz de “stand-up comedy”. Sua tristeza é o seu charme e seus atributos de dançarina são bem utilizados quando precisa manejar sua arma com toda sua flexibilidade. Ela diz que todo talento inútil, um dia, serve para alguma coisa. Não sei se aí Rodriguez tenta justificar a motivação para dirigir o filme.

Outra participação marcante para os fãs de terror é de Tom Savini. Faz papel de um policial que perde um dedo e sua aliança. Savini já trabalhou com os mestres do terror sendo responsável pela maquiagem e efeitos nojentos são sua especialidade.

A trilha sonora é marcante e composta pelo próprio Rodriguez. Com uma linha de baixo alternando quatro notas em acordes e um saxofone rasgado remete às trilhas do Tarantino que com o tempo já vão se destacando como referência para muitos cineastas. John Carpenter já fez o mesmo. Dirigiu e compôs a sinistra trilha de Halloween.


Tarantino faz uma ponta meio estranha no filme. É fã de outro segmento marginal do cinema. O que tem a temática de mulheres em prisão, que é chamado de WIP (women in prision). Em sua televisão está passando uma cena do filme “Women in Cages”. Lembro que vi esse filme no saudoso Supercine quando tinha uns 7 anos e uma imagem me marcou pelo resto da vida. Uma briga de duas mulheres. Uma quebradeira louca!


O nome Tarantino é muito forte. Mas parece que a massa está perdendo o encanto por ele. Mais uma vez fico feliz. Enquanto ele estiver livre e com vontade para filmar o que quiser estou sossegado. Não é fácil para um diretor americano que com 33 anos ganhou a Palma de Ouro em Cannes ser tão alheio às pressões de estúdios. Ele fez o caminho inverso de muitos diretores que começaram com filmes B e depois atingiram o sucesso como Francis Ford Coppola (“Dementia 13” / “O Poderoso Chefão”), Sam Raimi (“A Morte do Demônio” / “Homem-Aranha”) e Peter Jackson (“Náusea Total” / “O Senhor dos Anéis”).

Tarantino e Rodriguez me surpreenderam muito. Mostram que não têm medo da crítica. Não fazem filmes premeditados para agradar espectadores. Fazem o que gostam e ocasionalmente agradam. Essa é a máxima do cinema B e trash.

Para os fãs da famigerada produtora de terror Troma, Planet Terror é um prato cheio. Diversão sem preocupações. Alguns se sentem incomodados com isso. Eu não. Gostei muito. Mas não recomendo para ninguém pois já sou estereotipado como o cara que gosta de filmes “esquisitos”.

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