quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

Madredeus


Ecos na Catedral

Os teus olhos são vitrais
Que mudam de cor com o céu
E quando sorriem, iguais...
E quando sorriem, iguais...
Quem muda de cor sou eu
Tomara teus olhos vissem
O amor que trago por ti
Nem o entardecer me acalma...
Nem o entardecer me acalma...
Na ânsia de te ter aqui
E o teu perfume, o incenso
Os ecos de uma oração
Misturam-se num esboço imenso
Afogam-se na solidão
Fui para um templo de pedra
Escolhi um recanto isolado
Que me faça esquecer tua voz...
Esquecer-me da tua voz...
Que me faça acordar do passado
Escondida em sítio sagrado
E não me apetece o perdão
Devo estar enfeitiçada
Náufrago do coração
E o teu perfume, o incenso
Os ecos de uma oração
Misturam-se num esboço imenso
Afogam-se na solidão
Não sei se perdoo o meu fado
Não sei se consigo enfim
Um dia esquecer que teus olhos
Sorriem, mas não para mim

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

She Wants Revenge


A internet toma quase todo o meu tempo livre mas às vezes sou recompensado. Foi me perdendo pelo site allmusic.com que descobri o She Wants Revenge. Estava lá listado que se tratava de uma banda similar à americana Interpol. Como não agüento mais esperar um novo disco do Interpol resolvi experimentar o She Wants Revenge. Grata surpresa. Os vocais lembram muito o Bauhaus (sinistra banda cujo maior hit é “Bela Lugosi is Dead”), Joy Division (cerne do atual new order) e o próprio Interpol.
A banda de Los Angeles é formada por dois DJs. Justin Warfield (voz e guitarras) e Adam Bravin (baixo, teclados e sintetizadores). Os outros são músicos contratados como o guitarrista Thomas Froggatt e o baterista Scott Ellis. Justian já fizera uma participação em 2000 em uma música do Placebo “Spite & Malice” e alguns trabalhos com dj.
Suas letras são mais otimistas que as do angustiado Interpol, mas também falam de solidão. O SWR também fala da dificuldade de comunicação e de expressão. Relacionamentos amorosos são a base de suas letras. Sentimentos listados no próprio site oficial da banda ENGANO – TRAIÇÃO –MENTIRA – VINGANÇA – POSSESSÃO marcam as letras do álbum. Mas o SWR parece, afinal, ironizar tudo isso.
O que mais me chamou atenção na banda foi o estilo visual e musical.
Seus clipes são de extremo bom gosto. Em “These Things” há a participação da vocalista da banda Garbage. Shirley Mason está lindamente sinistra e com uma postura dominadora. O vermelho vai de seus cabelos à fotografia do clipe. Justin, o vocalista, está acuado.
Em “ Tear You Apart” há uma sátira ao comportamento adolescente e suas angústias. Uma garota comum que não quer que o namorado descubra o seu segredo. Novamente o vermelho tem destaque na fotografia, representando o segredo da protagonista. Nesse clipe, o SWR fala sobre a frustração adolescente. Um termo muito usado pela língua inglesa como teenage angst. Já foi marca registrada do The Smiths e Nirvana. Emoção semelhante expressada pela Beat Genaration encabeçada por Jack Keroac na década de 50 e o spleen da geração ultra-romântica do século XIX.
O She Wants Revenge ainda precisa de mais álbuns de qualidade para convencer a crítica e mostrar que não é uma banda que só sabe copiar. Mas para mim, o seu álbum de estréia é suficiente. Está hoje na lista das minhas bandas favoritas.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Marie Antoinette





Quando Sofia Coppola começou a ter destaque na mídia, senti certa desconfiança. O genial pai da moça, Francis Ford Coppola, autor de vários clássicos que considero obras primas como A Trilogia Poderoso Chefão e Apocalypse Now, tem o costume de ir discretamente escalando parentes para a composição de seus filmes. Basta tomarmos a trilogia como exemplo. Lá estão Tália Shire, sua irmã do mestre e esposa de Stallone em Rocky um lutador; seu filho Roman Coppola, seu pai Carmine Coppola que junto com Nino Rota produziu uma das trilhas sonoras mais marcantes além da sua filha e hoje maior representante do sobrenome Coppola. O nepotismo de Coppola começou a irritar a crítica sendo Sofia indicada quatro vezes ao prêmio Framboesa de Ouro dentre elas pior revelação da década, por Poderoso Chefão e pior atriz coadjuvante da década por Star Wars episódio I.

Sofia tinha tudo para ser um desastre na direção. Mas pelo contrário. Apresentou uma bela estréia na direção com Virgens Suicidas em 1999. Em seguida filmou o belíssimo Encontros e Desencontros. Sofia já não tinha nada para provar mas o festival de Cannes lhe reservou uma surpresa.

Seu filme era muito aguardado. Sofia se dedicou bastante à produção do filme. Conseguiu filmar no palácio de Versalhes em alguns aposentos não abertos à visitação pública. Fez seis anos de pesquisa junto a historiadores. Tudo isso em vão, para a crítica. Seu filme foi vaiado como há muito não se via em Cannes. A imprensa massacrou Sofia e pela sua fisionomia percebia-se seu constrangimento. Seus personagens foram chamados de superficiais e fúteis. A trilha sonora com músicas atuais também não agradou. A diretora não quis ler a principal biografia de Maria Antonieta escrita por Stefan Zweig e se baseou em uma outra , de Antonia Fraser, que trazia uma rainha mais humana.






Os franceses não gostaram de uma americana filmando em Versalhes. A diretora quis retratar uma história de uma menina que aos quatorze anos foi parar no palácio de Versalhes. Mostra uma Maria Antonieta diferente da esperada pelos franceses. A do filme não tem personalidade forte e tem toda a insegurança e chatice de uma adolescente.

A trilha sonora também causou polêmica. Com músicas do New Order, The Strokes, The Cure, Aphex Twin e Air; Maria Antonieta pareceu bem jovem e empolgada. Kirsten Dust não deixa a desejar no papel principal. O elenco também não desafina. Destaque para a filha do mestre italiano do terror Dario Argento, Ásia Argento.

A fotografia também é invejável. Representada em tons pastéis sendo cada fase um tom de cor. Chega a lembra em momentos a de Barry Lyndon, filme de Stanley Kubrick que revolucionou com uso apenas de iluminação natural para filmar.

Mas a cena que mais revoltou a crítica foi o aparecimento de um tênis all star. Uma falha proposital da diretora. Foi a deixa para o massacre da crítica.

Penso que o filme é muito maior que sua crítica. Sofia sempre foi hábil em descrever a auto-afirmação da mulher. Todas as personagens de seus filmes foram mulheres forçadas a crescerem contra suas vontades. Assim como a diretora que fora massacrada pela crítica quando era atriz. Talvez seja o tênis all star um símbolo do conflito que a diretora viveu. A década de 80 e o seu período de escolhas: seguir carreira no cinema e ter que viver a realidade da crítica. Ali no filme também estão canções contemporâneas como a clássica Ceremony da banda inglesa New Order. Banda que como Sofia desafiou a crítica e inovou.

Maria Antonieta é um chute no estômago dos puristas. É uma molecagem de adolescente que incomoda os pais intolerantes. É um riff de guitarra no ouvido daqueles acostumados com o silêncio ou com a serenidade de uma música clássica.



segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Rocky Balboa




Assisti Rocky Balboa na pré-estréia. Uma sessão que era composta em sua maioria de fãs dessa franquia de sucesso. O perfil dos espectadores era basicamente de homens entre 20 e 40 anos sós ou acompanhados de suas namoradas. De alguma maneira parecia que a maioria dos espectadores era também simpatizante da iniciativa de Sylverter Stallone em resgatar a carreira, mesmo diante de toda a ironia de quase toda a sociedade. Isso era percebido através de camisetas da Everlast ou qualquer referência ao boxe ou pelo fato de umas 15 pessoas acompanharem os créditos do filme até o final, em respeito ao velho Balboa.

A começar pelo cartaz de divulgação, Stallone está dizendo em outras palavras que esse é o Rocky de 1976. Fato que é confirmado ao longo da projeção. Ele poderia batizar o filme de Rocky VI, mas não o fez. Ele quis pagar uma dívida com o público e com ele mesmo que nunca o perdoaria se o final do grande Rocky Balboa fosse aquele filme de 1990. Stallone está querendo dizer também para esquecermos todo o maniqueísmo que habitou os outros filmes, principalmente o IV; que segundo meu amigo Henrique, um fanático dessa franquia, Stallone queria ali o fim de Balboa, morto em um ringue em plena União Soviética. Mas em tempos Guerra Fria, Stallone outra vez cedeu às pressões dos estúdios.

A nostalgia habita a cabeça do lutador em quase todo o filme. Tem problemas de relacionamento com o filho mesmo sendo uma boa pessoa. A terceira idade o assusta, e muito. Subindo ao ringue, Balboa e Stallone se juntam para mostrarem que ainda estão vivos. E ao final da luta mostra maturidade de um lutador e uma pessoa que tem muito para nos ensinar assim como muitos idosos que na cultura ocidental não são devidamente valorizados.

Rocky/Stallone parece entender o que a banda Los Hermanos canta em sua música O Vencedor: “Olha lá quem acha que perder é ser menor na vida / olha lá quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar”