Arnaldo Jabor é crítico de cinema e cineasta. Conheci seu trabalho como crítico no programa Manhattan Connection e confesso que ficava realmente chateado quando atacava filmes de que eu gostava. Um exemplo marcante foi A Vida é Bela. Jabor fez campanha contra o filme, atacou diretamente o diretor Roberto Benini e desqualificou qualquer virtude que o italiano poderia ter. Numa disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro, assumiu Central do Brasil como candidato assim como torcemos para o Brasil numa Copa do Mundo. Eu gostei muito dos dois filmes. Central do Brasil já tinha ganhado Urso de Ouro em Berlim. Não precisava de mais nada. Fiquei muito chateado com ele na época.
Fui atrás de seus filmes na ocasião. Gostei bastante. Principalmente de Toda Nudez Será Castigada (1973). Passei então a ler suas crônicas e sou impressionado como ele é capaz de dizer algo que está escancarado e que ninguém houvera dito. Concordo com muitos dos sentimentos que ele expressa. Ele emana nostalgia. Um sentimento bom. Uma inocência perdida no passado. Ele me lembra muito a minha mãe, falando dos tempos áureos do Rio de Janeiro.
O filme retrata uma família a partir da década de 40 no Rio de Janeiro. A ênfase é em Paulo (representado por três atores em momentos diferentes). Filho de Marco (Dan Stulbach) e Sofia (Mariana Lima). Paulinho cresce diante de um amor truncado dos pais. Marco e Sofia se casaram apaixonados e convivem ao longo dos anos num entediante cotidiano em que Sofia não é mais valorizada e Marco fracassa em sua profissão de aviador . Desaparece ao longo da fita aquela mulher que canta e dança músicas em inglês, que é apaixonada em cinema e que tem impulso para trabalhar, produzir. Marco se alimenta da dependência de Sofia e a castra de várias maneiras transformando sua vida em uma constante ameaça de traição.
Paulinho aprende ao longo dos anos a criar sua própria personalidade. Sua maior referência é o avô (Marco Nanini). Um boêmio amante da vida. Através dele, Paulinho aprende lições importantes em relação à felicidade. Algo distante da vida de seus pais.
O filme parece ser uma cinebiografia do diretor. Digo isso porque nos seus comentários nostálgicos, ditos tanto em seu programa de TV quanto em suas crônicas, eram vislumbradas cenas que foram mostradas no filme. Os namoros, a descoberta do sexo, os bordéis, o carnaval carioca, o futebol clássico e o estilo de vida carioca já povoaram minha cabeça antes mesmo da concepção do filme.
Marco Nanini faz uma atuação arrebatadora. Não esperava algo tão belo do ator que não se importa em fazer filmes produzidos pela TV e com foco na bilheteria. Ele não é aquele estereótipo de personagem carismático. Convence em todos os distintos pontos do filme.
Ponto negativo é o roteiro. Confuso e sem foco estabelecido. A decisão em contar três momentos da vida de Paulo parece ser errada. Não há profundidade de abordagem em diversos pontos da fita. Os três atores parecem não estar interpretando o mesmo personagem.
Às vezes penso que Arnaldo Jabor parou no tempo. Fala com tanto amor do passado que se esquece do presente. Ele quer mostrar que bem melhor era lutar pelas coisas e não ter tudo tão fácil, a um clique do computador. Ele quer dizer que uma mulher nua na tela do computador não tem o mesmo valor que a descoberta de um tornozelo nu de uma donzela vestida. Não há mais romantismo nas descobertas.
Arnaldo Jabor é François Truffautt. É o homem que ama as mulheres. Todas em seu filme são lindas à sua maneira. Mostra bem que a vida de um homem é dependente delas. A mãe, a esposa, a prostituta, a amante… Há sempre uma mulher para mudar as coordenadas de um homem. E isso é, afinal, apaixonante.
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