terça-feira, 2 de novembro de 2010

O que Terá Acontecido com Babe Jane? - What Ever Happened to Babe Jane? (1962)

Baby Jane Hudson (Bette Davis) é uma menina prodígio. Ninguém resiste ao seu charme. Movida pelo marketing, já agressivo da época, Baby Jane é uma super star. Tem tudo e todos aos seus pés e a excentricidade torna sua válvula de escape para diversão.

Blanche (Joan Crawford) é a irmã que vê todo o circo e não recebe atenção. Sua mãe tenta apaziguar a situação. Inevitável. Baby Jane é a preferida de todos.

Tenho pavor de crianças prodígio. Há sempre um ego paternal inflado que força situações. Quase sempre os pais (de crianças prodígio ou não) querem que seus filhos sejam talentosos e inteligentes. Parece que o orgulho não vem da possibilidade de ter um filho e vê-lo crescer. O filho tem que se destacar. Não penso assim. Mas também não sou pai, então não posso dizer “sei porque já estive lá”.

Enfim. O tempo passa e tudo se inverte. Blanche é uma das maiores atrizes de Hollywood e Babe Jane um fiasco.

Um acidente automobilístico sugere que Babe Jane seria responsável por deixar a irmã paralítica. Munida da deficiência da irmã, Babe Jane isola Blanche do mundo. Blance é incapaz de sair do quarto (no andar de cima do sobrado) e acaba em cárcere privado. Começa então toda a relação doentia entre as irmãs.

Babe Jane abusa física e psicologicamente da irmã. É aí que entra o poder de uma grande atriz. Bette Davis! É assustadora em vários sentidos. Kim Carnes (cantora pop) foi muito feliz ao cantar sobre os olhos de Bette Davis. São eles que fascinam e impõem medo. Baby Jane é ao mesmo tempo má e patética. Os vestidos que lembram sua infância combinam com sua maquiagem exagerada. Ela quer voltar aos palcos. Revela traços psicóticos e desprende-se da realidade e do bom senso. “Quem diabos é Babe Jane Hudson?” pergunta o funcionário dos classificados a um colega após a atriz se apresentar no recinto com ares de celebridade.

Joan Crawford está também muito bem como Blanche. Mostra-se abnegada pela irmã e traz empatia ao público. Parece aceitar os limites impostos pela irmã. Afinal, uma casa com empregada e quarto com janela voltada para os vizinhos não parece ser a melhor maneira de se manter uma pessoa presa, mesmo ela estando em uma cadeira de rodas.

O filme desenvolve através dessa conturbada relação entre as irmãs. Relação que não ficou restrita ao filme. Bette Davis disse que Joan Crawford dormiu com todos os astros da MGM, exceto a Lassie, para se tornar uma estrela. Mandou instalar uma máquina de Coca-Cola no set de filmagens para irritar Joan (viúva do dono da Pepsi). Já Joan Crawford colocava pesos nos bolsos nas cenas em que Davis tinha que carregá-la. Era dito que Joan Crawford velava uma paixão por Bette Davis e que chegou a dar uma cigarreira de prata que Bette furiosamente jogou na parede.

Tecnicamente é um filme muito bem feito. O cenário da casa (sobrado) lembra muito Psicose. Talvez uma referência ao filme feito dois anos antes. A cada vez que subimos as escadas, parece que vamos encontrar a mãe de Norman Bates e não Blanche Hudson. As filmagens externas também são um show. Ao acompanhar Babe Jane enquanto dirige, o diretor (Robert Aldrich) se livra de cenários falsos de paisagem e fixa uma filmadora no capo do carro. Outro fato marcante é a trilha sonora característica dos suspenses da época.

A curiosidade mais legal para mim foi saber que Alice Cooper (rockeiro muito ligado ao terror) se baseava na maquiagem de Bette Davis interpretando Babe Jane para compor seu visual anos 70. Demais!

Filme obrigatório para amantes do suspense. O adicional são as atuações magníficas. Ótima oportunidade para aqueles que têm preconceito de filmes antigos.


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