segunda-feira, 16 de julho de 2007

Kids Return - De Volta às Aulas





Sempre fui fã da obra do japonês Takeshi Kitano. Na minha opinião, melhor diretor do oriente da atualidade. Apelidado no Japão de “beat” Takeshi, o diretor começou sua carreira como artista de manzai. Takeshi é também autor de romances, contos e poesias; além de encontrar tempo para o desenho e pintura. Desde que assisti Verão Feliz, minha visão sobre o cinema oriental mudou e Takeshi foi responsável por isso.

Uma das características marcantes do cinema de Takeshi é a abordagem da amizade e companheirismo. Ele consegue sempre fazer isso com ternura e nunca apela para clichês ou cenas feitas. Os personagens de seus filmes transpiram emoções e é difícil não entrar na realidade dos mesmos como se fossem nossos amigos, mesmo que do outro lado do mundo.

O filme fala da vida de dois jovens. Os adolescentes são colocados como desajustados. Em momento algum é mostrado familiares dos mesmos. Parecem dois largados no mundo que têm na amizade um motivo para poder encontrar algum sentido para o vazio de suas realidades. Masaru e Sheiji são os únicos estudantes da classe que não trabalham. Únicos que não vão as aulas. Únicos que andam de bicicleta no pátio enquanto os outros assistem às aulas. São tratados como dois delinqüentes.

A fotografia tem grande importância. Os dois amigos aparecem em quase todo o filme de cores diferentes, principalmente o azul e o vermelho, em contraste com o plano de fundo cinza, representado pela cidade.

Masaru surge com a idéia de praticar boxe. Começa a correr e a fazer sombra no meio da rua. Chama seu amigo Sheiji para acompanhá-lo. Sheiji o acompanha como se fosse qualquer outra diversão que eles sempre costumavam a fazer juntos. Mas Sheiji leva jeito para o esporte e vai evoluindo nos ringues. Precisa é a abordagem de Takeshi na maneira da frustração de como Masaru encara sua inaptidão para o esporte enquanto Sheiji está prestes a começar a lutar nos ringues. Frustrado, Masaru sente vergonha e vê na Yakuza (máfia japonesa) uma maneira de se tornar reconhecido de alguma maneira.

O filme vai se desenvolvendo e abordando outros personagens peculiares (alguns com um fundo cômico; característica dos filmes de Takeshi). Mas nesse filme, o diretor japonês está mais sério e usa o boxe para criticar a sociedade japonesa. Ele mostra bem a pressão que a sociedade japonesa impõe a seus membros. A necessidade de resultados vai lentamente tirando todos os prazeres de um ser humano. Assim como um boxeador próximo a uma luta não pode ter prazeres com mulheres, comida e bebida; as pessoas vão aceitando essa realidade sem prazeres como uma máxima para obter sucesso em seu desempenho laboral. A frase dita ao empregado de uma firma no filme identifica essa pressão cotidiana: “trabalhe mais se quiser ver sua esposa feliz”.

E é dentro desse contexto que Sheiji e Masaru são tidos desajustados. Não trabalham e passam a maior parte do tempo se divertindo. Eles também sentem a pressão por resultados mas se diferem muito do meio em que vivem. Acabam seguindo caminhos diferentes e o filme apresenta um final até um pouco surpreendente para quem está acostumado com o diretor.

O filme acaba se tornando um reflexão para as nossas vidas. Estamos sufocados pela necessidade de mostrar resultados. Mas até que ponto temos que nos privar dos nossos prazeres e relacionamentos para mostrarmos resultados positivos?

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