quarta-feira, 9 de março de 2011

Machete (2010)


Danny Trejo parece ter nascido para um único papel. Você já o viu várias vezes mas não sabe o seu nome. Precisa de um mexicano, de preferência vilão? Chame Danny Trejo. Outro exemplo é o croata Rade Serbedzija que se presta a qualquer papel que precise de um europeu oriental. Contrário ao ideal de Javier Bardem que perde muito dinheiro ao negar superproduções que o querem como “o espanhol”, Danny Trejo nunca viu problemas em ser “o mexicano”.

A idéia de Machete surgiu como um trailer fictício entre os filmes Planeta Terror e À Prova de Bala. Traz consigo toda a aura de um filme B. Fanáticos pelo gênero sonharam como seria um filme protagonizado por Machete! A partir de então, Danny Trejo virou celebridade. O agora conhecido mexicano era parado e ovacionado por onde passava. Todos queriam a realização do filme.

Robert Rodriguez se rendeu. Transformou seu trailer em filme. Cenas foram refilmadas com os mesmos takes de câmera. Machete torna-se uma realidade. Trejo faz seu primeiro papel principal.

O desafio de Rodriguez é fazer um filme tão vibrante quanto seu trailer. Planeta Terror lhe deu segurança. Fazer um filme B hollywoodiano nos dias atuais é possível.

Na realização de outro filme B, Robert Rodriguez acerta parcialmente. A estética setentista desse gênero é vista apenas em cenas iniciais e finais, fazendo com que o meio da película seja uma produção atual de qualidade duvidosa.

A roteiro do filme complica-se já de início pois Rodriguez é obrigado a se basear em seu trailer. Fala de um ex-agente federal mexicano (Danny Trejo) que é chantageado para assassinar um senador (Robert De Niro). O senador teria como propósito realizar uma “faxina étnica” contra a imigração ilegal mexicana. Questões do narcotráfico estão envolvidas. Steven Seagal é Torrez, está ótimo como um chefe do narcotráfico com dotes em artes marciais.

Nada disso parece interessar no filme. Machete tem como arma seus ingredientes. Honrando a culinária mexicana, Rodriguez deixa o filme sempre quente. Principalmente por causa de suas personagens. Michelle Rodriguez e Jessica Alba têm raízes mexicanas. A primeira esbanja sua beleza selvagem, indomável. Uma beleza inata às combatentes (no filme é uma guerrilheira). Já a segunda faz o tipo de beleza frágil. Sua pequenez contrasta com a massa de músculos de Machete. Todas suspiram por Machete.

Lyndsay Lohan é um caso à parte. No filme é April. Filha patricinha do executivo (Jeff Fahey) que financia a campanha do senador . Semelhanças com a vida pessoal de Lohan até aí são muitas. A mini atriz da Disney hoje é manchete por abuso de drogas. A April do filme, porém, cai nas mãos de Machete (sexualmente falando) e protagoniza uma improvável cena de “ménage à trois” com sua mãe (Alicia Marek) e o feioso. Seminua em quase a totalidade do filme, Lindsay Lohan termina em trajes de freira. Uma freira nada convencional.

A candura visual de Lindsay Lohan contrasta com as cicatrizes de Danny Trejo. Machete é o “fodão” em todos os sentidos. Machete diz, por suas atitudes, que agora é sua vez. A vez do povo mexicano. Uma cena de sexo, mesmo que implícita, nos dá a impressão que é a voz reprimida de um povo relegado a papéis e empregos secundários no país de Hollywood dizendo “agora é a minha vez”.

O caminho do roteiro é perigoso. Um filme que era para divertir pelo seu nonsense pode trazer questões sérias implícitas. Ficamos nós, os espectadores, numa dicotomia entre entendermos que questões étnicas devem ser tratadas com mais respeito ou esquecermos o politicamente correto e curtirmos toda a pancadaria e explosão de filmes B propostas no trailer original.

Este é o trailer original. Feito para ser colocado entre os filmes de Robert Rodriguez e Quentin Tarantino.

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