segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Seres Rastejantes – Slither (2006)



Filme de terror com forte influência dos anos 80. Direção de James Gunn, roteirista do excelente remake de “Madrugada dos Mortos” e cria da Troma (produtora americana de filmes trash), que aborda a invasão de lesmas alienígenas parasitas obrigatórias !?!? O absurdo da história é encarado com descontração em um filme divertido e despretensioso.

Citar referências em filmes de terror só agrada aos fãs do gênero. James Gunn não é diferente e constrói uma obra que é toda de referência e que pode passar despercebida para um espectador não inteirado. Desde um trecho de Vingador Tóxico (maior clássico da Troma) que passa na TV até sobrenomes de grandes mestres do terror que batizam seus personagens, o filme vai bebendo de todas as referências possíveis durante toda sua projeção.

A invasão alienígena toma conta de uma cidade do interior que está vivendo uma festa de caçada ao cervo. Um casal tem uma noite ruim. O marido Grant (Michael Rooker) sai para beber e refletir e é atacado pelas lesmas. Seu comportamento e fisionomia mudam. Coisas estranhas começam a acontecer na cidade até o momento em que a esposa Starla (Elizabeth Banks) e uma equipe de policiais constatam que Grant se tornou um monstro. Os cervos já não são mais o alvo da caçada e sim Grant. Starla se junta à equipe que segue Grant e jura votos eternos de casamento.

Daí em diante, vemos uma chuva de sangue e gore com muitas pitadas de humor. Destaque para o prefeito interpretado por Gregg Henry. Politicamente incorreto é o mais hilário da fita. Os diálogos mantêm o filme sempre engraçado. A direção é segura com uma câmera ágil e precisa e o objetivo final, diversão, é atingido com êxito.

Melhor tática escolhida por James Gunn foi não querer levar-se a sério em momento algum do filme. Imagino a diversão que deve ter sido o set de filmagens.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Ódiquê? (2004)



Dois motivos levam três jovens cariocas de classe média fazerem uma viagem pela noite do Rio de Janeiro, do Leblon à Barra. Tirar satisfações com um traficante que vendeu folha de bananeira em lugar de maconha e tentar conseguir dinheiro para passar o carnaval em Arraial d’Ajuda. Para o segundo, os jovens recorrem a um colega de classe alta, filho de deputado e dono de um Jaguar.

Assustador é notar a simpatia pelo quarteto marginal. As iniciais conversas recheadas de xingamentos são divertidas (devem desagradar, porém, os não simpatizantes de cariocas). Mas a proporção que a noite toma torna-se aterrorizante. Os próprios jovens têm lampejos de consciência quando tentam desaconselhar o colega a cometer uma atrocidade. Vão deixando seu rastro de sujeira e inconseqüência numa atitude cheia de malícia que beira à brincadeira. O diretor Felipe Jofilly mostra os jovens com personalidades diferentes sem estigmatizá-los apenas como “pitboys” (termo recorrente na imprensa).

O filme tem a cara do Rio de Janeiro e a história em qualquer outro lugar pareceria falsa. Ser espectador é estar no Rio. É viver suas gírias e o jeito peculiar de tratamento entre seus moradores. Os diálogos são tão reais que até erros de fluência de fala tornam as cenas mais verossímeis. Não há frases feitas. São impulsivas assim como as atitudes dos jovens. Mérito do diretor estreante de apenas 30 anos.

Ótimo filme com um final desastroso. Não sou de ficar criticando finais e escolhas de caminho do roteiro mas o desfecho do filme significou desmerecer muitas das constatações de um retrato verdadeiro e cruel da juventude que transgride pelo desrespeito e violência. O único final que me desagradou significativamente foi o de “Encaixotando Helena” e ainda estou a concluir se o de Ódiquê? também jogou tudo por água abaixo.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

No Limite das Emoções - Ricordati Di Me (2003)



Filme italiano de Gabriele Muccino que dirigiu “À Procura de Felicidade”. Will Smith o procurou depois de conferir suas produções (inclusive esta do post) nos últimos anos. O resultado foi um filme que tinha tudo para ser piegas, ou é, mas que é emocionante.

“No Limite das Emoções” é bem diferente de “À Procura da Felicidade”. Nem parecem filmes do mesmo realizador. A produção italiana foca no cotidiano de uma família italiana de classe média. O pai de família Carlo (Fabrizio Bentivoglio) está cansado. A vida de casado já é um tédio. O encontro com uma ex-namorada (Mônica Bellucci) desperta e renova a ponto de arriscar o casamento e sua estrutura familiar. A esposa (Laura Morante) quer voltar a ser atriz. É insegura em tudo que faz. Já não tem o afeto do marido, nem o respeito dos filhos. Fragilizada, é vulnerável à opinião e atitude alheia. A filha (Nicoletta Romanoff) é a mais determinada. Seus alvos são fama, dinheiro e glamour. Para ela, uma coisa leva a outra. Sabe do potencial de sua beleza e de seu corpo e não hesita em usá-lo. O filho (Silvio Muccino) é um adolescente apaixonado. Quem não teve uma paixão na adolescência? A do rapaz é a não correspondida. A qual a moça, motivo de seus sonhos, tem consciência do fato e pouco se importa. A indiferença o faz sofrer. E, fora do núcleo familiar, Alessia (Monica Bellucci). Também casada e abalada desde o encontro com Carlo. Tentada a trocar o seguro pelo incerto. Carlo a faz sentir jovem e amada.

Laços familiares. Cinco pessoas com personalidades distintas. Distinção pelo distanciamento. Incomunicabilidade. Os diálogos são frenéticos assim como o ritmo de suas vidas. A família não é mais o ponto de apoio. E o que resta é a individualidade e a procura cega por correspondência afetiva.

Os atores seguram o filme para que o mesmo não vire uma telenovela. Perigo que o diretor corre por flertar quase o tempo todo com esse gênero.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Meu Nome não é Johnny (2008)



“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos (...)” Marguerite Yourcenar

A frase é citada pela juíza (interpretada por Cássia Kiss) em um cartão de natal a João Guilherme Estrella. Ela apostou tudo em sua regeneração e conseguiu. Os dizeres do cartão remetem a um resgate de valores do condenado em que a juíza acredita. As primeiras pátrias da escritora belga da citação foram os livros e em menor escala, a escola. A juíza deixa para João Estrella pensar sobre suas primeiras pátrias e avaliar o resultado da falta de limites em sua vida. Hoje João Estrella é produtor musical e pessoa cheia de histórias para contar.

Selton Mello é João Estrella, garoto típico da zona sul do Rio. Tem tudo. Inclusive a tolerância dos pais que são da geração em que a liberdade é fundamental para a construção do ser humano. João se aproveita disso. Seu carisma o torna querido. A cocaína, que tanto gosta, passa a lhe trazer dinheiro. Prazer e dinheiro passam a reger uma vida de luxo. Uma aventura sem conseqüências até o momento em que é preso por tráfico de drogas.

Preferi o filme ao livro. É divertido e com uma edição inteligente. Foge do banal. Nunca imaginaria Selton Mello na pele de João Estrella. Sempre pensei que escolheriam um carioca “marrento” para o papel. A escolha de Selton foi arriscada e muito feliz. O filme é um acerto na produção nacional.

Detalhe: vi o filme há um mês e até agora estou rindo da cena em que o preso “pilhado” na cadeia arruma confusão com os africanos!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Alpha Dog (2006)




Filme escrito e dirigido por Nick Cassavetes. Filho de John Cassavetes e Gena Rowlands. John é considerado o pai do cinema independente americano. Seu filho, o novo diretor, já tem doze anos de carreira e ainda não se firmou como nome de peso. Alpha Dog é seu segundo trabalho que confiro. Vi no cinema há uns 10 anos “Loucos de Amor” e as lembranças que tenho são boas. Ótima atuação de Robin Wright e seu marido Sean Penn.

Alpha Dog é sobre um grupo de adolescentes (classe média americana). Consumidores e traficantes de drogas que se envolvem em brigas banais, próprias da adolescência porém com conseqüências trágicas. A trama do filme se desenvolve em três dias. Johnny Truelove (Emile Hirsch) se envolve em uma rixa com Jake Mazursky (Ben Foster) e resolve seqüestrar seu irmão de 15 anos Zach (Anton Yelchin) para obrigá-lo a pagar uma dívida. O interessante é que Zach se afeiçoa por seus seqüestradores. Sempre tolhido por sua mãe superproterora (Sharon Stone), Zach se depara com uma síndrome de Estocolmo voluntária. Toda a delícia da juventude poderia ser oferecida por aqueles que o seqüestraram e os três dias de convivência com esse pessoal lhe oferecem as maiores emoções vividas por ele até então.

Nesse contexto destaca-se a importância do papel de Justin Timberlake. O queridinho da América se aventurando no cinema. Essas iniciativas chegam a ser irritantes. Mas sua atuação vale o esforço. Timberlake é quem segura o filme talvez frágil pela a falta de precisão de seu diretor. Traça uma relação de amizade com Zach e mostra sem maniqueísmos que certas situações levam uma pessoa de boa índole a ser um bandido.

Já em relação aos atores mais experientes, destaque para o velho e sempre bom Harry Dean Stanton (parceiro de David Lynch e de Wim Wenders). Bruce Willis está apagado no filme. Sharon Stone mais uma vez faz um papel com choros escandalosos que já está virando marca registrada da atriz de 50 anos que não pode mais apelar para seu corpo para garantir os papéis (para isso temos uma seleção de beldades que atua no filme).

Decepção maior foi atuação de Emile Hirsch (“Um Show de Vizinha). Ele é fraco o tempo todo no filme e faz o filme parecer um episódio de “Malhação” no mundo das drogas. Talvez isto sirva de lição para o diretor que gosta tanto de repetir os atores entre uma produção e outra.

Visualmente o filme é bem legal e é uma boa diversão. Erro é esperar do sobrenome Cassavetes algo maior.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

The Amazing Mr. No Legs (1975?/1981?)



Filme B de ação em que o protagonista é um cadeirante. Isso mesmo! Só de imaginar a existência de um filme com esse título já começo a rir.

A trama gira em torno da morte da irmã de um policial. Um acidente que passaria despercebido se o envolvido na morte da moça não fosse um traficante de drogas. Mr. No Legs não deixa barato e mata o sujeito de imediato para a investigação não desvendar o esquema de tráfico do qual faz parte.

Mr No Legs faz parte de uma organização criminosa envolvida no tráfico de cocaína. Seu chefe tem ligações com a polícia e é intolerante. Mas Mr. No Legs não aceita ser mandado. É ranzinza o filme inteiro e suas ações são inconseqüentes. É um anti-herói típico. Sua cadeira de rodas é equipada com armamentos pesados além de estrelas ninja. E não pára por aí. Mr No Legs é mestre em artes marciais e quando se vê encurralado distribui pancada com direito a gritinho kung fu.

Uma dupla de policiais (um deles irmã da moça assassinada) está no encalço dos traficantes. Todo o desenrolar do filme gira em torno de investigações ao estilo policial anos 70 (dupla de tiras, perseguições alucinantes, várias situações de perigo) e alguns diálogos são hilários.

O filme tem três cenas antológicas. Uma é a briga à beira da piscina (postada logo abaixo) em que Mr. No Legs arrepia geral. A segunda é quando o policial descobre que sua irmã foi assassinada e vai para o bar se embebedar ao som da romântica música “I Still Remember Love” com desempenho ao vivo da banda Mercy. Outra é uma briga de bar que faz inveja a qualquer faroeste. Tem de tudo nessa briga! Mulher jogando copo de cerveja na cara da outra para depois se arrastar no chão num duelo de puxões de cabelo que termina com um enforcamento por um fio de orelhão; Mr. No Legs sorrateiramente esfaqueando uma donzela; um travesti desmascarado acertando a garrafa na cabeça de seu amante; um gordo (dono do bar) usando sua pança para derrubar os adversários e um anão fica só agitando a briga! Todo esse circo de horrores ao som de um rock anos 70 bem legal.

Mais uma pérola do cinema tosco. Diversão para os adeptos.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Persépolis (2007)




Desde que li “Maus” minha concepção sobre o mundo das histórias em quadrinhos (HQs) mudou. Até então era fã de histórias como “O Cavaleiro das Trevas” e “Watchmen”. “Maus” mostra os horrores da Segunda Guerra Mundial. Judeus são representados por ratos, alemães por gatos, americanos por cachorros e poloneses por porcos. Trata-se de uma excelente obra literária. Tanto que ganhou prêmio Pulitzer de melhor livro.

Persépolis se assemelha muito a “Maus” não pelo conteúdo e sim pelo formato. Prioriza o contraste forte entre o preto e o branco. É também uma obra literária de grande valor. O cunho é autobiográfico. Conta a história de uma garota iraniana que sonha em mudar o mundo e as décadas de 70 e 80 no Irã são contadas a partir de sua perspectiva. Uma menina de classe alta com uma família estruturada vê-se privada de prazeres do mundo ocidental por uma ditadura religiosa. Uma jaqueta punk, uma fita do Iron Maiden, um tênis Adidas, uma garrafa de vinho na festa. Gostos pessoais e busca de uma identidade são tolhidos na infância e adolescência da protagonista.

Sentindo o potencial caráter subversivo da moça, seus pais a mandam para Áustria na tentativa de evitar que a filha tenha o mesmo destino de seus parentes inconformados. Sua passagem pela Europa é retratada sem glamour. O desconforto e insegurança da adolescência são externados através de seus relacionamentos incertos e tumultuados.

O mérito de Persépolis é ser fiel a uma história sem cair na tentação de torná-la encantadora. O humor vem daí. Uma adolescente em busca de identidade. Um tema universal contado em um país que reprime a individualidade. É um hino contra o preconceito e as generalizações.

Ganhador do Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes em 2007